Diário da transição: Big Chop - O fim da espera

janeiro 20, 2016

Foram dois anos de transição. Dois anos completos sem chapinha ou secador e muita paciência e persistência. 
Alguns dias da transição foram mais fáceis. Outros foram muito difíceis e desafiadores. Ir por caminhos desconhecidos nunca é uma tarefa tranquila. Mas não deixei que minhas neuras atrapalhassem minha vida por isso.
Antes da transição eu não aceitava que um único fio de cabelo estivesse fora do lugar. Tudo tinha que estar milimetricamente perfeito: raiz mega lisa, franja sem uma voltinha sequer e tudo isso contando com o apoio do trio guanidina, secador e chapinha.
Lisinha lisinha!
Cabelo liso, de franjinha e várias cores. Essa foi a fase Cleópatra.
Meu cabelo era bonito? Era sim. Muito bonito e às vezes quem não me conhecia poderia jurar que era liso in natura. Mas a pergunta é: e você era feliz?  A resposta é que ninguém consegue ser feliz por completo tendo receio de sua própria natureza. Não era o cabelo liso que me fazia sentir isso. Era eu mesma pensando que ele tinha que ser impecável. 
Mas e aí? Eu simplesmente desconhecia meu cabelo. Não sabia da sua real textura, nunca hidratava ( só uma ou duas vezes por semana quando minha mãe insistia muito) e não tinha intimidade nenhuma com meus fios.
Mas foi quando dei o basta.Apesar de usar química eu sempre tive o cabelo muito volumoso e isso fazia com que aquela torturinha de escovar e pranchar custasse horas. Eu não queria mais usar químicas, não era justo, não era possível que não houvesse outra alternativa para isso a não ser desperdiçar meu tempo em escovas de quase 1h40 de duração.
A decisão da Transição 
E aí em dezembro de 2013 eu decidi que a meta era deixar meu cabelo natural. Fosse ele crespo, cacheado ou uma massa de fios amórfica que eu achava que seria. Antes da transição eu não fazia a mínima ideia de como era meu cabelo por debaixo de tudo aquilo. Nem de olhar para  meus pais dava para saber. O cabelo da minha mãe é do tipo 2c e o do meu pai é tipo 3C.
Bom, contei algumas coisas aqui nesse, nesse e nesse outro post sobre a transição, as dicas essenciais e meu primeiro cachinho e o tempo foi me conduzindo para o dia 08 de dezembro de 2015 - o dia do tão sonhado, esperado, salve, salve, BC!
Fevereiro de 2014 - Cabelo sem uma ondinha sequer.
Junho de 2015 -Texturização com tranças.
Crescimento e cortes
Meu cabelo cresceu muito. Disso nunca pude reclamar. Aliás, eu reclamava muito sim! Era a fase que o meu cabelo liso ganhava um acessório: o capacete.
Quem faz alisamento sabe que a fase do desespero começa quando a raiz começa a nascer e o cabelo fica com aquele volume estranho na raiz. Misericórdia como é desesperador e tudo embola e o cabelo fica quebradiço. Aff!
Sim, meu cabelo cresceu. E minha opção não foi fazer o BC de cara. Eu fiz cortes muito grandes logo de início e depois cortes regulares para ir tirando o resto da química. Desse modo, não foi tão traumático para mim cortar o cabelo, pois de cara eu que não me via de cabelo curto. 
Aos 08 meses eu fiz um corte bem importante. E depois aos 1 ano e meio. Depois desses cortes eu não fiz mais as texturizações.
Dezembro de 2014 
Março de 2015 - Corte
Abril de 2015 - Novo Corte. Quase tirei toda química.
Junho 2015
                   
O Big Chop
Meu cabelo foi pegando forma e eu fui tratando (e maltratando também, pois colori nesse meio tempo) e os cachos foram se formando. Uma mistura de 3B e 4A na frente. Eu fui descobrindo aos poucos quais produtos eram melhores para mim e segui uma rotina mínima do cronograma capilar. Ao menos 1 vez por semana eu fazia ou uma hidratação, nutrição ou reconstrução. Isso foi essencial para eu saber que tipo de produto melhor respondia às minhas necessidades.
Foi quando já estava inquieta de ver o restinho de química nas pontas que decidi finalizar a transição de vez. 
Aproveitei minha mãe, cabeleireira de mão cheia ( já disse que ela se tornou uma das melhores só para me ajudar desde pequena?) e decidi cortar meu cabelo em camadas. 
Minha nossa. Que sensação libertadoramente fantástica! Eu desejo de coração que mais mulheres possam sentir isso depois de seus BCs. Eu não me contive e me emocionei. Passou um filme na minha cabeça. Sim, eu já passei por bullying por causa do cabelo. Difícil é conhecer uma crespa que não passou, mas mesmo nas épocas mais tenebrosas isso não me fez desistir. 
Durante a transição, o ponto mais importante foi o suporte dentro e fora de casa. Meus pais, meu esposo e amigas do trabalho ( cacheadas lindas e empoderadas) me incentivaram a seguir.
A transição não mexeu só com meu cabelo. Mexeu com um mundo de ideias dentro de mim. Eu repensei meus conceitos de beleza, descobri minhas possibilidades e me amo ainda mais do que antes.  Meu cabelo não me domina e eu não o domino. Eu sou livre e o meu cabelo também. Que venha o frizz, os cachos não definidos, os dias de bad hair e os dias em que o cabelo fica glorioso antes de dormir...e isso será sempre uma benção.

Novembro de 2015 - olha as pontinhas chatas
Dezembro de 2015 
Momento do BC - Dezembro 2015
Dia seguinte ao BC. 
Janeiro 2016 -Volumão pós BC

O que aprendi com a transição
Se amar, estar em paz consigo mesma e deixar que sua essência se expresse é um presente conquistado durante e depois da transição.
Não é só cabelo. É ideologia, aceitação, identificação e  representação. Não é moda, pois nenhum ser humano chegaria ao cúmulo do absurdo de passar quase três anos em busca de algo para entrar em uma onda fashion. É vida. É um grito de que eu, você, nós todas somos e podemos ser quem somos!
E não tem nada melhor para uma mulher do que quando ela rompe com a imagem que os outros tem dela mesma e ela pode verdadeiramente ser quem é.

Por isso, eu sou como o meu cabelo. Sou intensa, sou brilhante, falo alto (volumosa) e estou me expandindo sempre.E esse é só o começo. E todo dia é dia de fazer valer. 
Isto significa que se você compreendeu a mensagem por trás da estética do cabelo e conhece pessoas que assim como você e eu tinham receio de romper com o que está socialmente implícito quanto à beleza da mulher esta é uma chance de apresentar as informações necessárias às essas pessoas. Não é impor como já fizeram conosco, não é julgar. É uma abertura para que as pessoas possam se ver por uma outra ótica. Esse foi meu objetivo ao compartilhar minha história e sentimentos tão íntimos. E minha maior gratidão é receber o apoio de todos e saber que meu processo de transição inspirou pessoas como um dia também fui inspirada.
Deixo aqui então meu agradecimento à cada uma das mulheres que me ajudaram e se disponibilizaram a me orientar desde o início e ofereço meu conhecimento à quem precisar de ajuda para entender e seguir com suas transições capilares.
Hora de celebrar a  jubinha!
Gratidão, lindezas!

You Might Also Like

4 comentários

  1. Olá Carolzita, que saudade menina! Adorei ler seus comentários sobre sua fase de transição um grande estímulo pra mim que em 2016 decidi deixar meu cabelo black. Sair definitivamente de ser escrava da química que infelizmente não diz nada sobre mim e apenas nos faz cada vez mais esconder nossa verdadeira identidade. Li e pesquisei muito e ver você uma pessoa conhecida expor sua luta confesso que me deu mais forças para continuar levantando minha bandeira do meu "cabelo é crespo e eu vou assumi" Sei que não será fácil, mas não pretendo desisti. Ontem fiz meu primeiro corte(segurei o choro, mas lembrei do meu objetivo, ai não deixei a lágrima cair kkkkk) ficou curtinho porque tava impregnado de muita química(guanidina,escova progressiva, inteligente, chapinha.... e tudo que fosse para me deixar com as madeixas lisas). Mas, agora dei meu grito!!!! Segundo a cabeleireira que fui(especializada em black) depois do corte surgiu os meus primeiros cachinhos e que até o final deste ano muitos outros surgirão por conta da textura do meu cabelo(muito fino). Enfim. Estou decidida e ameeeeeeei seu cabelo viu. bjuss!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que saudades, minha amiga! Tão bom saber de você e ainda mais que está rumo ao seu cabelo natural! Você já é lindíssima por dentro e por fora e ficará ainda mais com seus cabelo natural! Estou muito feliz com sua decisão( e por você estar radiante) e o mais importe de tudo nessa vida é você estar bem. Estou à disposição para contribuir no que puder com você e não se deixe abater por nada. Muito obrigada pela força também e estamos juntas para dar esse grito de liberdade cada vez mais alto!Beijo enorme e qualquer coisa é só chamar! Obrigada pela vista ao blog e volte sempre!!!

      Excluir
  2. Talvez demore um pouco, mas se as mulheres percebessem que homens de verdade gostam de mulheres naturais, as coisas seriam menos complicadas, pois uma coisa é achar bonito uma mulher de cabelo liso e outra totalmente diferente é quando ela é natural, sem frescuras e sem neuras de se adequar a sociedade.

    ResponderExcluir
  3. Gente que diferença! E mano, tu ficou muito mais linda de cabelo cacheado. Eu sempre apoio as minhas amigas cacheadas a aceitarem seus tóin tóin mas elas ficam de mimimi tipo "ah, vcê diz isso porque teu cabelo é liso", espero que elas possam se aceitar e ficar muito mais linda que nem você! Beijoss

    irianneveloso.blogspot.com

    ResponderExcluir


Deixe seu comentário, Lindeza!

Twitter

Acompanhe por E-mail